17 de dezembro de 2014

Conto Um: Escorregando Para a Meia-Noite por Patrick Macedo



(via Tumblr)

Natal, aquela época que todos passam o ano inteiro esperando, não só pelas férias ou pelos presentes, mas, acima de tudo, pelo simples prazer de comemorar. Esse é um conto sobre Arthur, baixo demais, magro demais e sem nenhum atrativo ou característica física que realmente chamasse atenção.
Basicamente era uma pessoa comum como tantas outras milhões. Arthur acreditava que deveria curtir cada momento de sua vida, e quem sabe, talvez em um momento especial, encontrar aquela garota que ele acreditava ser a predestinada. Esse é um conto sobre o Arthur, mas principalmente, é um conto sobre o Natal que mudaria sua vida para sempre.
Finalmente havia chegado o dia, era véspera de natal, mas não era exatamente isso que Arthur vinha esperando naquele dia. Aquele era o dia em que ele buscaria o seu ultimo boletim na faculdade. Finalmente, o boletim que diria se ele estava pronto para seguir a vida como um verdadeiro arquiteto. Arquitetura era o que Arthur sonhou sua vida toda. Contudo, como nada é perfeito, a matemática veio junto para tentar transformar seu sonho em uma história de terror. Após 5 longos anos lutando bravamente contra a matemática, Arthur finalmente estava pronto para encerrar a faculdade e poder dizer ao mundo a frase pela qual ele esperou a vida toda pra recitar: “Eu fiz aquele prédio”. Claro, fazer prédios era o objetivo dele, mas acima de tudo ele acreditava que poderia mudar a visão do Rio de Janeiro, a cidade que o abraçou e que zela por ele até hoje (Os assaltos não contam). O maior problema? Bom, desastrado como sempre foi, perdeu sua senha para acesso do boletim online e vai ter que ir até a faculdade buscar. Faculdade que se localiza do outro lado da cidade, e justamente no dia da véspera de natal.
Já eram 6 horas da manhã quando seu despertador tocou, era a hora, e Arthur sabia disso, tanto que correu até o banheiro, tomou o banho mais rápido que poderia tomar e pegou a primeira roupa passada de seu guarda roupa. Ao por o seu primeiro pé para fora do apartamento, Arthur se animava e já pensava no futuro que o aguardava.
O caminho era longo até a faculdade, o caminho de Madureira até a Tijuca não era pequeno, e ao chegar na estação ferroviária vinha a notícia: Todos os trens estavam cancelados até segunda ordem, afinal, era véspera de Natal, quem quer trabalhar no natal? Arthur pôs a mão na cabeça, estava desesperado, mas estava certo de que nada poderia estragar seu dia, grandes coisas estavam por vir.
- O Metrô, é isso que eu posso fazer, é o metrô- Disse Arthur em voz alta, o metrô realmente era sua melhor alternativa para aquele dia, tirando o fato de que teria de pegar um ônibus até Colégio para conseguir embarcar no metrô, mas isso não importava, ele estava sedento pelo que o aguardava. O primeiro ônibus a aparecer foi logo o que o levaria até lá, pura sorte se levar em consideração o tempo de intervalo gigantesco que esse ônibus fazia. Arthur fez sinal, o ônibus parou, mas não antes de jogar em cima dele uma poça de água parada que ficava num vão do meio fio. O dia realmente não havia começado bem, motivo para muitos se estressarem, mas Arthur pensava mais do que isso. Por mais chata que aquela situação parecesse, ele estava buscando o melhor dela.
Ao chegar na estação do metrô em Colégio, Arthur não continha a animação, estava embriagado pelo futuro que aguardava para si, suas roupas ainda encharcadas o davam uma aparência (e um cheiro) nada agradável, mas quem se importava? Valeria a pena, não é? Era impossível não se animar com o dia, era impossível não ficar “elétrico”, era impossível dormir. Arthur dormiu encostado na porta do Metrô, ah, vamos, ele havia acordado muito cedo naquele dia, todos merecem um descanso.
Arthur realmente pegou no sono, sono muito profundo por sinal, e isso é bem perceptível, afinal, ele acordou assim que o metrô havia parado em sua estação final, Botafogo. Arthur saiu desesperado do metrô, a faculdade estava prestes a fechar, era véspera de Natal, tudo iria fechar as 11:00 hrs, ele tinha menos de uma hora e meia pra chegar na faculdade e pegar seu boletim, era preciso correr contra o tempo, a ansiedade havia se tornado desespero.
- Olá, você está atrasado?- Perguntou uma linda morena que estava ao seu lado na plataforma. Seu belo olhar penetrante e seu sorriso carismático embasbacaram Arthur quase que imediatamente.
- Estou, estou sim, acho que estou, quer dizer, eu estou- Disse Arthur quase que gaguejando tentando falar para aquele lindo sorriso. - Acho que eu falei “estou” quatro vezes, me desculpe, preciso buscar meu boletim na faculdade e isso tá acabando comigo...
- Não precisa se desculpar, todo mundo tem um dia ruim.-  Enquanto falava, o sorriso da moça não desaparecia nem por um minuto de seu lindo rosto. Era a coisa mais bela que Arthur já havia visto.
- Chegou, finalmente, você vai nesse?- Disse Arthur ao se referir ao Metrô que estava se aproximando.
- Não, eu vou esperar por algum da linha 2.- Disse a senhorita ao ser interrompida pela correria de Arthur para entrar no vagão lotado do metrô. - Então tchau, viu- despediu-se a moça já sozinha.
Ops, acho que ainda não demos um nome para ela, não é mesmo? Bom, vamos chamá-la de “Moça”, ao menos por enquanto.
Arthur conseguiu embarcar no vagão, não completamente, afinal, metade de seu braço havia ficado para o lado de fora, para seu espanto, já que era um tanto quanto exaltado e desesperado (acho que já falamos sobre isso aqui,não?) em tudo que fazia. Arthur começou a gritar, estava realmente nervoso, achava que a qualquer momento uma pilastra poderia vir e decepar seu braço com a mesma facilidade que uma tesoura teria para cortar um papel qualquer.
- Socorro, eu não quero ter o mesmo fim do James Franco em  “127 Horas”!!- Gritava Arthur implorando por socorro enquanto todos no vagão olhavam pra ele segurando o riso. - Vão me deixar aqui para morrer mesmo? Em que rumo anda a humanidade? Me ajudem!
Após gritar loucamente sem obter nenhum resultado por 2 estações, a porta finalmente abriu e Arthur pode retirar seu braço, nunca havia ficado tão preocupado em toda sua vida, mas após toda aquela situação, admitia pra si mesmo o quão ridículo aquela cena deveria ter sido. Ao por a mão no bolso, notou que seu celular havia sumido, aquele realmente não estava sendo nada legal. Arthur nem conseguia mais pensar em seu boletim, tanta coisa havia acontecido naquela manhã e agora justamente o celular que ele tanto amava havia sumido. Sua vida toda estava ali.
O metrô parou, a estação de São Cristóvão, a que ele sempre descia pra ir até sua faculdade (cuja localização já era considerada como Tijuca), estava deserta. Arthur desceu e procurou rapidamente o telefone público mais próximo, ao ligar para seu celular, ouviu a voz mais doce que ele poderia ouvir no mundo.
- Eu sabia que uma hora ou outra você iria perceber que deixou seu celular cair enquanto corria pra pegar aquele metrô.- Disse a Moça com uma suave risadinha quase imperceptível.
- Você, eu nem tenho como te agradecer, tô bem mais aliviado agora- Indagou Arthur aliviado por saber que seu telefone de uma forma ou de outra não estava quebrado por aí, e até mesmo estava feliz por ter uma desculpa para ver a Moça novamente.
- Não deveria estar aliviado, você precisa correr e pegar seu boletim, você tem 10 minutos. Run, Forrest, Run.- Disse a Moça com o seu meigo sorriso, - Não se preocupe quanto ao seu telefone, me encontre às 19:00 horas no centro da cidade, pode ser? Na praça XV
- Pode claro, acho que preciso correr agora.- Arthur desligou o telefone público quase que imediatamente, não tinha o costume de se despedir, e sabe, ele não estava errado quanto a isso, as vezes é melhor sempre esperar por uma continuação.

Arthur correu rapidamente, era possível só ver seu vulto atravessando a passarela até chegar na faculdade, conseguiu realizar um trajeto de 10 minutos em impressionantes 3 minutos. Ele havia conseguido. Minutos antes da faculdade fechar ele conseguiu fazer o requerimento de seu boletim. Ao finalmente conseguir tocar no boletim vinha a surpresa, Arthur não havia conseguido se formar, sua média havia sido muito baixa em duas das matérias que mais odiava e ano que vem ele deveria ter que cursa-las mais uma vez, ele não tinha escolha, era mais do que possível ver a decepção fluir em seu rosto.
Bom, antes que reclamem comigo de que esse não foi o final feliz que esperavam e blá-blá-blá, os alerto que esse não é o final, devem ter percebido que ainda havia outra história para ser desenrolada, não?
Arthur pegou o metrô novamente e conseguiu chegar ao Centro da Cidade em minutos, o que era de fato uma ironia por completo. Ao sair da estação, Arthur sentou no banco que se fincava no meio da Praça XV, era meio dia e ele estava se sentindo completamente desolado. Arthur ficou sentado a tarde toda naquele banco, estava se sentindo falho consigo mesmo. Esse é o pior sentimento que se pode sentir. O tempo foi passando cada vez mais rápido, até que as 19:00 hrs chegaram sem que Arthur percebesse.
- Você chegou bem cedo- Disse a Moça com sua suave voz, Arthur se virou na mesma hora. - Toma, aqui está seu telefone, desculpe por favor você esperar tanto- Desculpou-se a Moça entregando o telefone para Arthur.
- Não me fez esperar, não, relaxe- Indagou Arthur, novamente gaguejando ao olhar pra ela.
- E o boletim? Pegou?- Perguntou a Moça querendo puxas assunto com Arthur.
- Sim, consegui, mas… Olha, deixa isso pra lá- Disse Arthur ao responder a Moça, agora já de forma mais segura, sem gaguejar. Arthur realmente não se importava mais com o boletim, estava embasbacado diante da Moça. - Olha, eu sei que falta pouco pro Natal, mas, você quer sair pra comer alguma coisa? Deve haver, quem sabe, algum lugar aberto agora - Disse Arthur, agora, já possuía a confiança de um piloto de corrida.
- Claro, não há nada esperando por mim no Natal mesmo- Revelou a Moça com a mesma risadinha doce de outrora. - A propósito, meu nome é Amélia.
- Prazer, Arthur, mas acho que meu telefone já deve ter te contado isso, não?- Disse Arthur, finalmente, curtindo o momento.
Aquele foi o melhor natal que Arthur já teve, e possivelmente, o melhor natal de Amélia também. Sabe, Arthur ainda não sabe se ela é verdadeiramente a predestinada, mas algo me diz que ele vai descobrir. Esse não é bem o final, esse na verdade é o começo, onde toda uma desventura na véspera de natal, se tornou a maior aventura da vida de Arthur e de Amélia.


Patrick Macedo.

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