24 de dezembro de 2014

Conto Três: Onze Horas por Ruama Gomes

(via Flemings Myfair)


Aquilo não podia ser verdade.
A frase deveria estar escrita errada ou Diana entendeu errado. Não deveria estar acontecendo assim.
Ela não conseguia raciocinar. Era como se toda a neve de Londres, estivesse acumulada no seu cérebro e não coubesse mais nada lá dentro.
- Senhorita?- A bonita garota ainda estava ali em pé, com aquela roupa azul e muito bem aquecida. Ela encarava Diana como se sentisse pena da mesma. Mas até ela mesma sentia pena de si. Ai meu Deus, o que ela iria dizer para sua família? E sua mãe que esperara tanto tempo para lhe contar que estava grávida de novo!
- Olha... Eu sei que posso parecer muito rude agora, mas você tem que entender que eu preciso entrar nesse avião!
Diana olhou para o nome da garota, preso em seu uniforme e se sentiu agoniada.

Se alguém tivesse dito há alguns dias que ela possivelmente não conseguiria chegar ao Brasil no Natal, ela riria e então responderia sua típica frase “Essas coisas nunca acontecem comigo”. Porque ela era a Diana da sorte. Nunca perdia uma aposta e nunca tinha azar nas coisas.
Mas ah, ela estava muito enganada, porque aquela tela atrás de Tanya, a aeromoça, acabava com todos os seus planos.
O voo poderia ao menos estar atrasado, ela não ligaria. Mas cancelado? Por que em mil anos alguém cancelaria um voo no Natal?
- Me desculpe senhorita, mas há muita neve lá fora e...
- Eu entendi. Está tudo bem, é só que...
Ela não conseguiu terminar a frase e nem mesmo se desculpar. Simplesmente sentou no carpete macio e se apoiou em sua mala.
O que ela iria fazer? Ligar para sua mãe? Pedir que seus amigos a buscassem no aeroporto?
Nada parecia certo, porque se ela chamasse seus amigos, estaria desistindo daquilo muito fácil, e se ligasse para sua mãe...
Diana demorou a perceber que algumas lágrimas lhe escorriam o rosto.
O Natal seria em um dia e a viagem para o Rio de Janeiro levaria onze horas. Se ao menos conseguisse um voo até de manhã...
Ela olhou para todos os rostos aflitos perto do portão trancado, e imaginou a história de cada um. Diana avistou uma senhora que segurava uma bolsa de mão, dourada, e olhava para o portão, como se a qualquer instante e aeromoça voltaria para avisar que o voo estaria saindo logo. Aquilo era doloroso.
Diana morava em Londres há apenas dois anos, e não via sua mãe desde que se mudara. Aquele seria um Natal especial e ela poderia então dizer sua grande novidade. Novidade... Aquilo deveria soar alegre em seus pensamentos, mas...
Ela pegou o celular em seu bolso e enxugou algumas lágrimas. Achou o nome Rupert rapidamente e começou a digitar.
“O voo foi cancelado, não sei o que fazer!”
Não foi preciso esperar muito tempo para que Rupert respondesse.
“Claro que foi, é Natal.”
Merda, pensou Diana. Ele poderia ser mais sensível de vez em quando.
Decidiu não mandar mais nada para Rupert e então se levantou do chão. Café, ela precisava de um bom e delicioso café.
Ela conseguia sentir a alegria alheia enquanto caminhava no aeroporto. Ouvia as risadas e às vezes, só às vezes, conseguia sorrir para alguém. Mas a verdade era que ela não conseguia pensar em outra coisa se não em sua família no Brasil.
Pediu um café expresso em uma lanchonete qualquer e achou melhor voltar para seu lugar em frente ao portão. O aeroporto estava lotado e a volta pareceu extremamente longa.
Ao chegar ao portão de embarque, Diana percebeu que todos continuavam ali sentados. Ela olhou por reflexo para cima e viu que o painel não mais indicava voo cancelado. Estava vazio.
O resto de esperança dentro dela, foi embora.
- Não, não, não. Isso não está acontecendo!
Diana olhou para um homem conversando com a mesma aeromoça que anunciou o cancelamento do voo. Ele era alto, vestia um suéter preto e usava jeans. Tinha os cabelos e a barba aparados e um pouco claros. Esquisito mesmo era a pele morena do homem. Ele tinha um bronzeado estilo Califórnia e aquilo dava um charme extra ao seu visual.
Ela estava olhando muito para ele? Aquilo não era errado, não é?
- Senhor, eu...
Aquilo era uma jogada de cabelo? Diana riu discretamente, agora não se importando se olhava ou não para os dois. Aquela mulher estava sim dando em cima do bonitão, e aquilo era de longe mais divertido do que chorar por uma desgraça daquele tamanho.
- Há algum voo pro Brasil, que não tenha sido cancelado?
Diana ficou tensa novamente. Como não havia pensado em perguntar algo como aquilo?
Ela viu a menina desfilar para trás do balcão em frente ao portão e lançar olhares para o homem enquanto procurava algo em seu computador. Quando ela voltou, não foi tão discreta. Tanya simplesmente lambeu os lábios e disse:
- Ah sim. Temos um voo para o Rio de Janeiro, mas só temos cadeiras na primeira classe...
Diana deu um pulo, quase derrubando sua mala. As pessoas em volta a olharam com desconfiança e ela sentiu algo quente em sua perna. Muito quente.
- Droga!- ela berrou ao ver o café derramado em sua calça. O homem virou em sua direção e franziu o cenho para a situação vergonhosa de Diana.
Ela começou a bater na calça na tentativa inútil de tirar o café enquanto andava em tropeços até os dois.
- Eu ouvi que vocês têm outro voo! – Diana sussurrou tentando não ser percebida pelos outros passageiros. O que era impossível.
A aeromoça a olhou de cima para baixo e sorriu forçadamente. Diana não estava nem aí, afinal, ela precisava fazer de tudo para chegar naquele Natal, no Brasil.
- Sim, pois é, temos um voo que sairá daqui a umas duas horas. Mas só temos assentos na primeira classe.
- Como troco minha passagem?
Ela ouviu uma risada ao seu lado e lembrou-se do homem de um metro e oitenta que estava parado ali. Ela se sentiu quente.
- Acho que não se troca esse tipo de passagem.
A garota concordou com vontade ao ouvir aquela voz rouca completar a frase. Diana cobriu a calça molhada com a bolsa e puxou o ar com toda sua força.
- É verdade. Não podemos trocar sua passagem. Claro que você receberá mais tarde o reembolso do voo cancelado. Mas não posso dizer quando, e você teria que pagar toda a passagem da primeira classe. – “Toda a passagem”, isso quer dizer que todo o dinheiro sairia do bolsinho dela e ela não veria tão cedo a parte que seria devolvida do voo perdido.
- Eu gostaria de pegar esse voo. Então você poderia me levar lá? – Tanya se aprumou rapidamente quando o homem a olhou com um sorriso.
- Claro, claro. Vamos lá.
Diana continuou parada enquanto era deixada totalmente para trás. O homem tinha as costas largas e andava de um jeito tão despojado que a aeromoça ao seu lado mais parecia uma adolescente atrapalhada. Ela tinha pouquíssimo tempo para pensar, então pegou sua mala e saiu correndo em direção aos dois.
- Esperem, esperem! Eu vou também.
O homem sorriu de lado e a olhou com um rosto desafiador e brincalhão. Qual era a daquele cara? Diana se perguntava.
A aeromoça não se sentiu nem um pouco feliz ao ver que mais uma garota estaria ao lado do Sr. Califórnia, então sorriu sem os dentes e olhou para a frente com o nariz empinado. Diana não parava de pensar em como ela teria que se matar para pagar aquela passagem, mas segurou firme sua bolsa de mão e prometeu que aquilo não estragaria suas férias. Na verdade aquilo era o mais próximo de um milagre que poderia chegar. 
Quando os dois foram deixados quase que aos choros por Tanya, no local onde comprariam suas passagens de ultima hora, Diana encarou o homem como se perguntando se ele iria primeiro.
- Primeiro as damas. – ele fez uma reverência com o braço e ela percebeu sua ironia. Com o queixo erguido, Diana foi até o atendente do balcão.
Após passar os dados de Diana para o computador, o homem ergueu a cabeça e falou a pior coisa do mundo.
- São oito mil setecentas e sessenta e nove libras.
- O que?
- O preço da sua passagem, senhorita.
Diana quase desmaiou. Aquilo era basicamente o que ela ganhava no ano. E se ela desse uma de turista e convertesse... Ai meu Senhor, a libra valia quase cinco reais.
- Você vai comprar ou...
Ela sabia que ele, aquele gigante atrás dela, estava rindo da situação. Então tentando respirar, Diana abriu a carteira e pegou seu cartão de crédito.
- Parcelam de quantas vezes?
- Você vai precisar de umas quinhentas. – o Sr Califórnia sussurrou. Ela olhou para ele com o rosto vermelho e completou sua compra.
Sua conta passara para extremamente negativo em um minuto.
- Boa viagem, Srta Santos.
Diana não teve forças para responder. Pegou sua nova passagem e foi atrás do portão de embarque, que ficava do outro lado do aeroporto.
No meio do caminho Diana recebeu uma mensagem de sua mãe e conseguiu sorrir ao lembrar que a veria em algumas horas. Pelo menos isso valeria a pena.
Sendo parte da classe média desde berço, Diana nunca experimentara o conforto da área VIP. No máximo ia de executiva e isso quando estava com milhas no cartão. Mas suas milhas não cobririam um terço daquele luxo. Ela não demorou a entrar no avião e logo se viu abobalhada sentada em uma poltrona que mais parecia uma cabine particular.
A cadeira deitava em posição horizontal e virava uma minicama. A cabine podia ser “fechada” por uma parede, com um clique.
Aquilo era o máximo. Mas ao mesmo tempo, não valia todo aquele dinheiro, não é?
Quando sua mala já estava guardada e Diana já estava sentada em sua poltrona, a pele bronzeada surgiu em seu campo de visão, parando exatamente na poltrona do lado.
- Está valendo a pena? – ele guardou sua mala e sentou em sua poltrona. Seu sotaque britânico era tão forte que lembrava Diana de outro homem alto em sua vida. Ela não havia avisado a Rupert!
- Você é cem por cento britânico, não é?
Ele riu e seus dentes brancos se destacaram em meio à pele dourada.
- Ah sim, produzido e semeado na Europa.
Diana assentiu e voltou a atenção para sua cabine. Ela puxou o celular e discou o número de Rupert. Não demorou para que a voz do loiro preenchesse a linha.
- Precisa que eu te busque no aeroporto?
- Ah não. Eu consegui um voo... Tive que comprar a primeira classe.
- O QUE? Você está louca? Bebeu Diana?
Diana afastou o celular da orelha e respirou fundo. Ela sentiu o olhar do homem Califórnia preso nela.
- Rupert, eu tinha que ver minha mãe.
- Sua mãe vale tudo isso?
Ela ficou chocada com o que ouviu. Rupert estava passando dos limites com aquela arrogância insuportável.
- É claro que ela vale! Vale infinitamente mais do que isso! – Diana tentou não elevar a voz e sentiu que estava prestes a chorar. Por que diachos ela havia ligado para ele?
- Então aproveite seu Natal com ela.
Ele desligou sem deixar que ela respondesse. O celular ficou em sua orelha por alguns segundos, então ela abaixou a mão e ficou encarando o aparelho.
O moreno não disse nada. Ela preferiu assim.
Todos entraram no avião e o piloto iniciou o processo de decolagem. Diana estava desligada demais para ouvir qualquer coisa que fosse dita naquele alto-falante.
O avião correu no chão um pouco molhado de neve e finalmente levantou voo. Do céu, Diana assistiu Londres desaparecer em meio às nuvens e logo tudo o que via era um mar de algodão doce. Ela fechou a janela.
- Ei! – ao virar para o lado, Diana viu que o moreno estava inclinado para o seu lado e mesmo um pouco distante, ela sentiu o cheiro de um perfume amadeirado. – Você fechou a minha vista.
- Ah, me desculpe. Por que não comprou o assento da janela? – bufando já irritada, Diana simplesmente olhou para a TV na sua frente e fingiu assistir alguma coisa.
- Você tem alguns problemas. Com seu namorado.
Ela continuou encarando as imagens na TV, se perguntando qual era a doença do cara que não parava de tentar puxar assunto com ela.
- Não que seja da sua conta.
Ele riu.
- Meu nome é Greg. – Diana assentiu com a cabeça. Os minutos passaram e ela achou que podia relaxar, então pegou o lençol que lhe fora deixado na poltrona e se cobriu.
Foi quando ele falou novamente.
- Olha, nós podemos passar onze horas fazendo exatamente nada, ou podemos usar essa metade de um dia para nos conhecermos.
- O que exatamente você quer? – dessa vez Diana não pôde escapar de olhar no fundo dos olhos castanhos esverdeados de Greg.
- No momento, saber seu nome.
- Diana.
Ele repetiu o nome com o sotaque britânico e ela revirou os olhos. Mesmo que soubesse que preferia seu nome pronunciado daquele jeito.
- Satisfeito?
- Um pouco – ele sorriu e inclinou um pouco sua poltrona. – Agora você pode contar o que vai fazer no Natal. Porque parecia bem decidida a ir ao Brasil.
Diana se lembrou de seu desespero quando ouviu a possibilidade de ter outro avião para o Rio de Janeiro, e não ficou surpresa com a curiosidade de Greg.
As luzes do avião diminuíram quase que nada e o som de liberação dos cintos encheu o lugar.
Ela olhou para o homem com certa curiosidade, afinal, por que ele queria tanto saber sobre toda sua vida?
- Minha mãe. Não a vejo há dois anos. Mas e você Greg, por que estava tão desesperado para chegar ao Brasil?
Ela viu a mudança em seu rosto. No momento em que sua feição de brincalhão deu lugar a uma cara pensativa e quase vaga.
Ele mordeu o lábio inferior e Diana teve de admitir que fora extremamente sexy.
- Minha irmã.
- Irmã? – aquilo certamente nunca teria passado pela cabeça de Diana. Ele comprou uma passagem de primeira classe, em cima da hora, para ver a irmã?
- Ela está há um tempo no Brasil, e eu não acho que seja certo.
- Ela é uma rebelde?- brincou Diana, mas Greg continuou sério.
- Basicamente isso.
Ele não ficou mais tão empolgado para continuar a conversa. Diana se sentiu incomodada e até um pouco ressentida com sua atitude. Qual é, ele que tinha puxado o papo!
Depois de assistir a dois filmes e se empanturrar de amendoim, Diana não aguentava mais ficar deitada na mesma posição bebericando champanhe. Claro que ela dava umas longas olhadas no moreno ao seu lado, mas ele não mais demonstrava interesse algum na jovem. Ao menos era o que ela pensava.
O céu já estava completamente negro, repleto por estrelas distantes e com certeza inexistentes naquela hora.
O som do avião deveria acalmar aos ouvidos e mentes de todos, mas Diana estava extremamente elétrica. Ela tentou ler um livro que Rupert a deu de presente, mas parou na décima página ao perceber que seu namorado não sabia mesmo seu gosto literário. Optou então por ir ao banheiro, onde poderia pirar no estilo Santos. Tentou não fazer barulho e caminhou até o banheiro da primeira classe.
Espaçoso, pensou.
- Ai meu Deus, o que fizeram com você?
O reflexo no espelho mostrava uma garota cansada. Seus cabelos negros continuavam intactos, mas seus olhos estavam vermelhos e suas sardas apareciam como nunca.
Diana percebeu que não levou sua bolsa até o banheiro e bufou, esfregando uma boa quantidade de água em seu rosto. Ela era bonita, sabia disso. Mas às vezes queria não ter aquelas sardas que Rupert dizia parecerem flocos em um donut.
Rupert dizia muitas coisas sobre seu corpo. Ela um dia já foi bem confiante sobre sua beleza, mas com ele... Ele a fez perceber que na verdade, ela não tinha nada de especial. Ela era só bonitinha. “Bonitinha como uma Branca de Neve no mundo real”, era o que ele lhe dizia.
Ele não era de todo mal. Às vezes Rupert agia como um elegante cavalheiro, e aqueles momentos, Diana decidia guardar no fundo do peito. Eles se conheceram em seu primeiro mês em Londres, e como ela havia se encantando por aquele sorriso!
Rupert trabalhava para seu pai e era formado em Direito. Perfeito, não é? Ao menos era o que ele lhe dizia. Já Diana, passava seus dias desenhando e criando invenções magníficas. Ela se orgulhava de ser uma Artista e não trocaria isso por nenhuma carreira.
Tinha sua própria boutique, onde colocava a venda algumas de suas obras. E ela andava ganhando muito bem naquilo. Talvez não tão bem a ponto de cobrir uma passagem de 8 mil libras...
- Eu estou totalmente ferrada.
Balançando a cabeça a ponto de jogar a tristeza longe, Diana abriu a porta do banheiro.
Nesse mesmo instante um som ecoou no avião e a grande aeronave foi com toda a força para o lado. Diana voou contra a parede e sentiu algo muito, muito pesado chocar em sua barriga.
A porta bateu com uma força absurda e então o avião voltou à posição anterior.
- Meu... Deus...
O peso que chocara contra seu corpo havia com certeza esmagado seus órgãos.
- Tá tudo bem? Caramba, o que aconteceu?
Diana entrou em desespero quase que imediatamente. Enquanto Greg se levantada do chão e massageava a cabeça, ela correu para a porta e tentou inutilmente abri-la.
- Não!
- O que houve Diana? Meu Deus, o avião virou tão de repente.
Diana o olhou com os olhos esbugalhados e viu que ele sangrava.
- Estamos presos aqui. A porta emperrou. E sua cabeça está sangrando.
Ele olhou para seu reflexo no espelho e xingou em um sussurro. Diana pegou alguns papéis e os molhou um pouco. Greg se sentou na tampa do vaso e ela pressionou os papéis em seu machucado.
- Você tem sarda. – Diana riu enquanto corava.
- Isso é ruim?
- Claro que não. Elas são extremamente adoráveis.
Decidindo que a conversa não estava no rumo certo, Diana se afastou e deixou que Greg segurasse os papéis.
- Você pode tentar abrir a porta?
Houve um silêncio entre eles e Greg franziu o cenho enquanto pensava no que responder. Ele parecia conturbado com a situação. Mas levantou, jogando fora os papéis com sangue, e empurrou a porta com toda sua força.
Nada.
- Pelo visto vamos ficar aqui por um tempo.
O banheiro não era tão grande para duas pessoas. Então Diana começou a entrar em pânico, em silencio e quase que imperceptivelmente.
- Não sabia que era tão ruim assim ficar presa comigo em um banheiro. – de tudo que ele pudesse falar, Diana não esperava que aquilo saísse de seus lábios. Ela o olhou como uma paranoica e riu.
- Você deve ter muitas meninas enchendo seu ego. Desculpe-me Greg, mas eu não caio nessa.
Eles não conversaram por longos minutos, então Diana perdeu a paciência e o atacou com palavras.
- Qual é a sua? Você puxa papo comigo, quer saber da minha vida, tenta se aproximar e então quando pergunto algo sobre você, sua cara muda e você fica calado!
Greg a olhou com o mesmo olhar que a deu no momento em que Diana derramou café em sua calça. Ele parecia calculista e sério.
- Não vai responder?
- O que você quer que eu responda Diana?
- Talvez o motivo de você ser tão bipolar.
Dessa vez Greg riu.
- Eu não sou bipolar. Só não sou tão interessante quanto você. Minha vida é totalmente previsível. Você com certeza sabe que eu trabalho em algum escritório e nos finais de semana saio para beber em algum PUB porque não consigo ficar um minuto sozinho em casa. Esse é o tipo de cara que eu sou.
Diana o olhou como se não entendesse aquela língua.
- Não quero saber o que você faz durante a semana. Quero saber o que faz você esconder quem você é toda vez que pergunto algo sobre a sua vida.
- Ah isso... Você quer mesmo saber?
Ela queria, não queria?
- Natal de dois mil e treze. Houve um acidente no centro de Londres.
- Eu lembro.
- Eu estava lá, com minha irmã e minha namorada. Nós íamos para a casa dos meus pais em Brighton. Por algum motivo a merda do freio do carro parou de funcionar.
Greg parecia totalmente inquieto. Seu rosto estava duro e distante, como se as imagens passassem em sua mente conforme ele falasse. Diana se sentiu culpada, sabendo exatamente aonde aquela história a levaria.
- O chão estava escorregadio por causa da neve e... Eu tive que tirar as garotas de dentro do carro.
- Mas o carro explodiu- sussurrou Diana, lembrando-se claramente do incidente que marcara seu Natal no ano anterior.
- Sim, o carro explodiu, e não consegui tirar minha namorada de dentro.
Aquilo com certeza era um motivo e tanto para não querer compartilhar sua vida com alguém desconhecido. Meu Deus, como Diana se sentia uma idiota.
Ela olhou para todos os cantos do banheiro tentando evitar os olhos intensos de Greg. Puta merda, pensou. Ele continuou ali parado, apoiado na pia do banheiro com o rosto abaixado. Sexy.
Sexy e infeliz.
Diana não fazia ideia do que a levara força-lo contar tal história.
Ela estufou o peito e fechou os olhos com força. Precisava falar algo e precisava falar naquele momento.
- Eu sin-
- Meu Deus! – a porta do banheiro foi aberta por uma aeromoça descabelada e de olhos esbugalhados. Greg a examinou de cima a baixo e Diana não deixou de admitir que a garota era realmente bonita. Ora bolas, que linha aérea era aquela? Bonitonas Indo Para o Céu?
- Vocês ficaram trancados esse tempo todo aí?- Por algum motivo, a garota não parecia ter pensado nada demais ao se deparar com um homem sexy e uma mulher, trancados no banheiro.  Aquilo com certeza deixou Diana perturbada.
- Obrigada por nos tirar daqui.
Greg saiu do banheiro sem nem mesmo trocar um olhar com Diana. Droga, ela perdera a chance de se desculpar e com isso a coragem também. Lançou um ultimo olhar para a aeromoça e a mesma mantinha seu olhar preso no traseiro do moreno londrino.
Ao se sentar em sua poltrona, nada pareceu tão incrível como antes. A TV a irritou de primeira e logo estava desligada. Ela pensou em pedir mais um champanhe, mas aquilo a faria parecer uma bêbada. Olhou para a poltrona de Greg e se deparou com uma miniparede cobrindo sua visão. Ótimo, agora ele estava a evitando de verdade.
Inclinou a poltrona até que ficasse como uma cama e passou horas encarando o teto.
Não percebeu quando caiu no sono.

- Senhorita, chegaremos ao Rio de Janeiro em minutos, a senhorita precisa voltar a poltrona para a posição original.
Depois de quase ficar cega com a claridade do avião, Diana conseguiu ter sua visão de volta e ajeitar sua poltrona. Ela havia dormido tanto tempo assim?
Por impulso, olhou para a poltrona de Greg e quase desmaiou ao ver que o suéter não mais cobria sua pele bronzeada. Ele usava uma camisa branca e aquela visão era mil vezes melhor que a anterior.
Oh não. Ela não deveria pensar aquilo.
- Me desculpe.
- Hã? – Ela balançou a cabeça e curvou o corpo para mais perto dele.
- Me desculpe por ter te tratado daquele jeito. Você não tem nada a ver com tudo aquilo.
Greg parecia inofensivo e desprotegido. Por meros segundos Diana achou ver seu corpo grande se diminuindo a cada palavra dita.
- Não... Você não precisa.
Não precisa? Que coisa idiota de se falar, pensou Diana.
Ela voltou para sua poltrona e fechou os olhos.
- Estamos chegando. Como vou falar com você de novo?
- Você quer falar comigo de novo?
Com os olhos ainda fechados e os lábios secos, Diana escutou o piloto avisar que pousariam.
Greg a olhou naquela posição e precisou piscar por uns segundos. Ela era mais do que uma garota do avião, ele sabia disso.
Nenhuma mulher chamara tanto sua atenção como Diana. Não depois de Gina. E o Natal... Aquela não era uma data muito boa em sua vida. Mas Diana estava fazendo cada minuto mais surpreendente. E depois que buscasse sua irmã, ele talvez pudesse...
- Tem mais uma vaga na sua festa de Natal?
- Você quer passar o Natal comigo?
Diana abriu os olhos de supetão e Greg examinou-os com prazer. Castanhos e brilhantes.
- Isso parece ruim?
- Bom, pra falar a verdade parece sim. Mas como você é um cara legal e talvez não encontre sua irmã tão cedo, não vejo porque não convidá-lo.
Diana pensou no que sua mãe falaria sobre um homem tão bonito em sua casa em pleno Natal, mas se sentiu obrigada ao levá-lo, depois de fazer com que ele lembrasse o seu Natal passado. Qual é, ele merecia algo melhor nesse ano.
O desembarque foi extremamente cansativo, mas Greg parecia mais que empolgado por estar em solo brasileiro. Diana sorriu ao vê-lo bolando saídas e discretamente a incluindo em seus planos. Ela pensou em como seria ter Rupert ali ao seu lado.
Não imaginou mais que isso.
Por um instante uma pergunta a afetou. Por que estava prestes a fazer aquilo? E por que escolheu justamente o Natal para contar à sua mãe?
Podia parecer idiotice, mas ela achava que tudo aquilo era um sinal. Ela podia ter contado antes, mas então não teria conhecido Greg e não estaria vivendo aquilo agora.
- Vamos? Eu pago o seu táxi.
Greg sorria como uma criança e Diana não mais se lembrava de seu rosto triste de horas atrás.
- Muito obrigada, mas minha mãe vai me buscar. Mas não esquece de comprar o chip e ligar pra mim. Eu vou te explicar direitinho o endereço de lá.
Eles se despediram com um abraço e Diana demorou a soltá-lo. Aquilo era uma tortura.
Assistiu Greg ir até um táxi na entrada do aeroporto e esperou alguns segundos até avistar sua mãe com uma barriga e tanto, com seu marido ao seu lado.
O resto do dia foi extremamente previsível. Sua mãe estava linda e feliz, enquanto a casa continuava exatamente igual. Diana passou o dia preparando os enfeites de Natal e à tarde decidiu descansar. Mas de minuto em minuto examinava o celular esperando algum sinal de Greg.
Rupert havia mandado uma mensagem no meio do dia e dizia:
“Me desculpe. Feliz Natal.”
Ela não conseguiu responder. Tudo parecia errado.
 Ao olhar o topo de sua árvore de Natal, Diana decidiu algo totalmente insano.
No fim da tarde Greg ligou. Ela sabia que era ele mesmo antes de atender. Ele não parecia muito feliz, mas estava ansioso para vê-la e isso a animou mais que o necessário.
- Quem é esse rapaz que vem jantar conosco, filha?
- Greg. Eu o conheci no aeroporto de Londres.
E ficou por ali.
Às nove horas, Greg apareceu vestido com uma blusa social e jeans. Não conseguia esconder o quanto estava feliz o apresentando à sua família. Greg não deixava de encará-la com os olhos brilhantes. Ela estava maravilhosa com aquele vestido vermelho.
Em meio às risadas e conversas, Diana se levantou de sua cadeira ao lado de Greg.
- Diana?- sua mãe parecia confusa com aquele ato. Então levantou também, com a mão apoiada em sua barriga.
Diana olhou para a estrela no topo da árvore de Natal que ficava em frente à mesa de jantar. Olhou para o relógio na parede e para Greg ao seu lado.
Meu Deus, que eu esteja fazendo a escolha certa, implorou em pensamento.
- Estamos prestes a virar o dia e o Natal. Mãe, eu vim até o Brasil para dizer que... Eu e Rupert estamos noivos.
Greg limpou a garganta e o marido da mãe de Diana se ajeitou em seu assento. Diana olhou diretamente para sua mãe.
- E eu não posso me casar com ele, mãe. Porque não está certo. Ele nem mesmo quis conhecer vocês!- a garota apontou para os dois familiares com os olhos já lacrimejando. – Ele... Ele não é um bom partido. – Diana deu ombros e uma risadinha.
- Filha...
Ela mesmo assim continuou a falar.
- E eu nunca achei que ele fosse bom, mas ele era o único cara que olhava pra mim! Ele foi meu único apoio em Londres e me ofereceu um futuro. Mas... Eu estou infeliz. E eu percebi isso quando conheci Greg.
“Não estou dizendo que estou apaixonada por você, pode acalmar os neurônios. Mas você amava sua namorada e isso... Eu senti isso! Eu quero sentir isso com alguém também.”
Todos continuavam calados, então Greg levantou de seu assento e segurou a mão direita de Diana. Ele riu nervoso e disse em alto e bom som.
- Acho que isso é o Feliz Natal mais esquisito que alguém já deu.
Diana riu como se não risse há séculos e sua mãe a acompanhou.
O frio do ar condicionado da sala a fez se sentir em casa novamente. Diana sabia que sua casa era em Londres. Greg a olhava com os olhos felizes e acolhedores.
Ela olhou de novo para a estrela em cima da árvore e se sentiu confiante de novo. Uma voz no fundo de sua cabeça a dizia que era isso o tempo todo. O Natal, os sentimentos, a espera... Aquele era o verdadeiro motivo de Diana não ter feito nada diferente. Tudo deveria acontecer exatamente assim.
Ela sabia que quando voltasse para Londres não poderia voltar para Rupert. E também sabia que Greg estaria ali por ela. Querendo ou não, ele estava definitivamente em sua vida. E ela não tinha certeza se era por pouco tempo.
Olhando para o moreno, Diana não pode deixar de sorrir mais. Talvez ela fosse mesmo sortuda no fim das contas.

O Natal nunca fora tão... Necessário.

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