25 de dezembro de 2014

Conto Quatro: Última Vez por Isabella Bossan

           
(via Tumblr)


            Dominique sentou cansada em seu sofá. Faz muito calor no Brasil nessa época do ano e ela não tinha dinheiro para pagar um ar condicionado. Ou um ventilador decente. Desde que se mudara da casa de sua mãe, a grana era contada. A independência vinha com um preço, ela sabia disso. Só não que seria tão alto e mensal.
Era véspera de natal. Ela prometera que faria a ceia para comemorar o fato de estar morando sozinha. “Por que raios eu resolvi aceitar isso, meu Deus!” ela pensou enquanto observava seu apartamento recém-alugado. Ela estava feliz ali, mas sentia falta da época em que tirava selfies de natal e ajudava a mãe com algumas coisas. Ela tinha acordado às 7 horas para começar a fazer as comidas. Queimou o arroz algumas (sete) vezes. Por fim, desistiu e pediu pra cada um trazer uma comida simples. Definitivamente, esse seria o melhor natal. “Tão bom quanto pão com jiló.” foi o que ela pensou.
Tomou um banho gelado e longo, escutando músicas de natal em versões atuais. Mais ou menos no meio de “Santa Tell Me”, interrompendo sua cantoria, o telefone começou a vibrar. “Talvez seja a mãe querendo saber se eu finalmente consegui fazer o arroz. Coitada, ela ainda tem esperanças.” ela ironizou enquanto pegava uma toalha para atender ao telefone. Eram 17h38. Era um número desconhecido para o celular, mas para ela era mais do que gravado. Ela não sabia se atendia ou não, então decidiu ficar olhando para a tela do celular até ele parar de tocar. Quando estava chegando perto do ultimo toque, ela não conseguiu aguentar.
- Alô. – Ela finalmente atendeu, esperando a pontada que sentiria quando ouvisse a voz dele.
- Feliz natal, Nick. – Ricardo disse suavemente do outro lado da linha.
Eles costumavam ser chamados de Rick-Nick pelos amigos mais próximos. O motivo era simples: eles se amavam desde o dia que se conheceram, 5 anos atrás. Ela tinha 15 anos ele tinha 17. Demorou um pouco até os dois se ajeitarem, mas quando ela tinha 18 e ele 20, começaram a namorar. Dois anos depois, no momento do telefonema, tudo havia mudado. O namoro durou um ano porque os dois não conseguiam se entender.  Ele se entregava demais e ela não sabia lidar. Ela era distante demais e ele não sabia lidar. Até que em uma noite, os dois decidiram conversar sobre isso. Ele quis terminar. Ela também. Ninguém entende como aconteceu até hoje. Nem eles mesmos.
Naquele dia, tudo isso era uma lembrança distante. Ela se forçara a esquecer de tudo para conseguir viver direito e acreditava fielmente que ele havia feito isso também. Mudou-se da casa de sua mãe, arranjou um emprego e fazia o curso que amava na faculdade. Mesmo com todo o esforço, ela nunca deixou de pensar nele quando alguma coisa nova e interessante acontecia. Na última vez que ouvira falar dele, soube que ele estava namorando e que havia mudado de estado. Ela preferira ignorar essas informações.
Trinta segundos de silêncio. Já era hora de falar alguma coisa. Mas o que?
- Eu liguei porque já faz um tempo. Eu queria saber como anda a sua vida. – Rick quase sussurrou. Como se só os dois soubesse o que acontecia quando se falavam. Não era verdade, todo mundo sabia. Ficava escrito na cara deles.
- Ah... Sim. É... Eu só estou surpresa. Um ano já... Ou mais. Não é?
- Exatamente por isso eu liguei, Nick. – ele soltou uma risada baixa para a piadinha boba dele. Ela sorriu, mas não omitiu som.
- Bem, olá. Eu estou bem, mas estava ocupada. Você não ligou numa hora boa.
- O que você estava fazendo de tão importante que não poderia parar para falar comigo? – era impressionante como os dois não perdiam a intimidade, mesmo sem se falar por um ano.
- Hoje é natal, cabeção. – Ela riu dessa vez. Ele também.
- Então você estava arrumando a ceia? Decidiu ser uma pessoa não-preguiçosa?! – Ela costumava ser bem preguiçosa. As coisas realmente mudaram.
- Eu estava tomando banho.
Silencio.
- Ah. Sim. Bem, me desculpe. Eu só queria te desejar um feliz natal... E talvez ter um papo decente depois de tanto tempo.
- Não precisa se desculpar, mas acho que o papo não vai rolar agora. Estou cheia de coisas pra fazer. – Mentira. Já havia acabado tudo, só não queria conversar.
 - Tudo bem... Então... Feliz natal. Até.
- Feliz natal. Beijos.
Ela desligou e jogou o celular longe (sendo “jogar” uma expressão, já que o celular era caro e ela quase deu os olhos pra pagar). Ainda estava de toalha no banheiro e não entendia o que tinha acontecido. Ligou a caixinha de som, mas mudou a playlist. Precisava pensar e, para isso, trocou as músicas. As perguntas que ela se fazia variavam de “por que ainda me sinto assim?” com um tom dramático, para “por que raios ele me ligou hoje?” com um tom raivoso. Por fim, ela não respondeu as perguntas. Ela não sabia como.
Saiu do banho e deu uma olhada no celular de novo. Nenhuma mensagem dele. Quarenta e três mensagens de natal, nenhuma dele.
- Isso é bom. – disse em voz alta. Não era. Ela só ficava tentando se convencer que preferia a distância que eles construíram.
Terminou de se arrumar e deu os últimos ajustes na sala. Quando estava acabando, o interfone tocou. Era sua mãe com sua irmã mais nova, Melissa. Ela as recebeu como se nada tivesse acontecido. Seus dois irmãos mais velhos apareceram com suas esposas e sua sobrinha, Ariel. Sim, como a princesa. Nick ajudara a escolher o nome. Seu pai chegou mais tarde e então todos ficaram conversando e contando as novidades. Ela pensou que seria uma situação um pouco embaraçosa falar o que havia acontecido mais cedo. “Família, meu ex me ligou. Aquele que eu ainda amo e não falo pra ninguém, sabe? Ele mesmo! Yay!” Definitivamente não.
No meio da conversa, seu interfone tocou de novo. Ela não estava esperando mais alguém. Então, um pouco antes de atender o pensamento de que poderia ser o Ricardo passou bem na sua frente. Seu coração acelerou.
- Boa noite Srta. Cavalcante. Tem um homem aqui embaixo que deseja falar com você. O nome é Ricardo. – o porteiro disse com voz de risada. “Provavelmente Rick fez amizade com ele. Normal.”
- Posso mandar subir?
“SIM!”
- Não. Eu desço. Obrigada.
Dominique avisou a família que teria que descer. Inventou que tinha um problema lá embaixo envolvendo uma reclamação que ela não entendeu pelo interfone. Eles acreditaram, ela saiu.
Ele estava a esperando do lado de fora da portaria. Continuava lindo, porém havia emagrecido bastante. Tinha um olhar cansado. Ela sentiu vontade de perguntar se tinha algo acontecendo, mas achou que não seria conveniente. Ricardo sorriu para Nick e ela se perguntou se algum dia acharia um sorriso tão sincero por aí.
- Você está linda.
- Feliz natal pra você também, Rick. – Ela corou.
- Eu vim passar o natal com meus pais aqui no Rio. Precisava te ver.
- Como descobriu onde eu morava?
- Melissa. – “Claro. Melissa. Espera. Ela sabia de tudo? ELA SABIA DE TUDO E NÃO ME DEU NEM UMA PISTA?”
- Ah sim. Então, a minha família está lá em cima, eu não posso ficar aqui. Acredito que sua família esteja te esperando também.
- É, eu sei. Mas eu preciso conversar com você.
- Eu não sei... Se quero conversar com você. – Ela queria, mas tinha medo de voltar pro mesmo ciclo que eles viveram durante um tempo.
- Mas Nick... É importante.
- Olha, não dá. Eu não quero. Eu não quero ter que olhar pro seu rosto enquanto você me diz que ama outra pessoa. Eu não quero ter que ouvir você dizer que volta pro Rio Grande do Sul amanhã. Eu não quero te dizer adeus de novo, Rick. Chega. Acabou.
- Nick, presta atenção... – ele se aproximou dela.
- Não! Chega disso, eu não aguento mais pensar em você! Eu não... – ela não conseguiu completar a frase. Seu rosto estava a centímetros do de Ricardo. Ela se sentiu com 18 anos de novo. Burra e apaixonada.
- Presta atenção. – Ele sussurrou logo antes de beijá-la. Ele era bem mais alto que ela, então teve que puxa-la pra cima. Foi intenso, como se todo o tempo que ficaram separados estivesse naquele beijo. Dominique queria aquilo e ela sabia. Ela podia tentar negar, mas sabia a verdade. Eles estavam em um lugar reservado e quando ela se deu conta, ele já estava tirando sua blusa.
- Rick. – ela cortou o beijo.-  Para. Para agora.
Ele se afastou, respirando forte.
- Eu preciso... Te falar uma coisa.
- Não. Eu não quero ouvir. Olha o resultado das nossas “conversas”! A gente não consegue, Ricardo. NÃO. CONSEGUIMOS.
Ele olhou pra ela. Os dois ficaram em silencio alguns minutos. Ela percebeu que ele estava bem diferente. Notou sua magreza mais uma vez e suas olheiras. Deduziu que fosse por causa do trabalho, junto com a viagem de avião. Ele decidiu quebrar o silêncio.
- Olha... Se você não quer ouvir o que eu tenho a dizer... Eu escrevi uma carta. Eu sei o quanto você gosta de recebe-las e imaginei que não fosse querer conversar. – Ricardo tirou um envelope azul do bolso. – Leia quando tiver tempo. Só não deixe de ler.
Ele colocou o envelope na mão de Dominique, beijou sua testa e foi embora. Nick não sabia o que de tão importante ele tinha para dizer, mas não queria pensar nisso agora. Ele poderia dizer que a amava e ela não saberia como reagir. Rick voltaria pro Rio Grande do Sul no dia seguinte e ela pensaria nisso por meses. Era melhor esperar até a ceia acabar.
Subiu e disse para a família que havia resolvido o problema. Voltaram a conversar. Mais tarde, ceiaram, trocaram presentes, riram bastante e depois todos se foram. Ela havia passado a noite com um nó na garganta e ninguém percebeu. “Talvez eu seja uma atriz muito boa. Eu devia tentar entrar na Malhação.”
Arrumando seu apartamento, a carta coçava no bolso de sua calça. Ela sabia que queria ler, mas tinha medo do que encontraria ali. Tentou lavar a louça para esquecer. Não funcionou. Então, ali no meio de sua sala, ela abriu a carta.

Nick,

Se você está lendo esta carta, é porque não quis escutar o que eu tinha pra dizer. Provavelmente nos beijamos e, se isso aconteceu, acredite, eu estou sorrindo até agora. Nenhum beijo é como o seu, cabeção.

“Nenhum beijo é como o seu, cabeção.”

Eu preciso de verdade conversar com você. Mesmo. Cara, você sabe o quanto é especial pra mim, não é? Nesse tempo que ficamos sem nos falar, muitas coisas aconteceram. Eu arranjei um emprego em uma grande empresa, me mudei, arranjei uma namorada, terminei com ela, aluguei um apartamento, comprei um carro e adotei um cachorro chamado Francis. Mas você sempre estava ali. Quando tudo isso aconteceu, era pra você que eu queria contar. E foi por isso que eu fui até você. Uma coisa meio... Séria aconteceu.
Recentemente, eu comecei a sentir dores no peito. No inicio, achei que não fosse algo sério. Você sabe, eu odeio médicos, faço de tudo pra não ir. Até que numa manhã eu acordei sentindo dores fortíssimas, falta de ar... Bem, ataque cardíaco. Fui levado para o hospital e fiz alguns exames. Aparentemente, terei que realizar uma cirurgia complicada aqui no Rio de Janeiro... Com alguns riscos.

“Não... Não.” Ela começou a chorar.

Você precisava saber. Eu não posso realizar a cirurgia sem... falar com você. Eu sinto muito por não ter sido pessoalmente. Eu bem que tentei, sabe. Hahaha. Nick... Eu amo você. Nunca deixei de amar, mesmo quando eu disse que precisávamos terminar. E agora que eu posso... Bem, você sabe... Eu precisava te dizer isso. E preciso dizer muito mais.
Eu estarei te esperando depois da cirurgia, se tudo ocorrer bem. A Melissa deixou um outro envelope na sua cama, com o endereço do hospital e os telefones de contato. Caso a gente se encontre, me lembre de agradece-la por tudo.
Venha me ver. Eu sinto sua falta.

Beijos.

Rick.

Dominique não pensou duas vezes. Em 10 minutos, já havia pedido um taxi e pegado umas roupas para ficar no hospital. Desceu correndo e entrou no taxi. Não sabia o que falaria quando o visse. Se pediria desculpas por não ter escutado. Ela devia ter perguntado quando teve a chance. Ela o conhecia bem o suficiente para saber que algo estava errado. Ela precisava vê-lo, precisava estar do lado dele, mesmo que isso significasse ter que dizer adeus de novo... Seja lá de que forma. Pelo menos ela estaria ali e, dessa vez, seria de verdade.
Era 1h48. Discou os números que o telefone não conhecia, mas ela sabia de cor.
- Sra. Amorim? É a Dominique...



Comente com o Facebook:

4 comentários:

  1. Que amor esse conto, quero mais Rick-Nick <3

    http://nerdicesdeumagarota.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quem sabe um dia, não é? ahahahaha
      Obrigada <3

      Excluir
  2. Que show esse conto. Gente, que surpresa linda ele fez para ela. Ir pessoalmente é algo que ela não esperava meeesmo. Adorei.

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista. São 4 ganhadores e você escolhe o livro que deseja ganhar.

    ResponderExcluir

Copyright © 2014 | Design e Código: Sanyt Design | Tema: Viagem - Blogger | Uso pessoal • voltar ao topo