22 de dezembro de 2014

Conto Dois: O Primeiro Natal por Carol Barth




















23 de Dezembro.

Dia 23 de Dezembro. Acabei de acordar de um sonho totalmente indiferente e resolvi escrever nesse diário estúpido. No sonho, eu era mais novo, tinha 21 anos, morava nesse mesmo apartamento e o estava decorando para o Natal. Estupidez. Por que eu sonhei isso? Não me importo com essa época onde todos fingem se amar e fingem saber a origem do Natal. Ah, eu prefiro fazer nada mesmo. Não preciso de nada e nem ninguém para me fazer feliz. Sei cuidar de mim mesmo… Ok, acho que o desabafo já foi o bastante... Hora de voltar a dormir.

Esta é a história de Julian. Um jovem de 23 anos que acabou de terminar a faculdade de Direito e vive num pequeno apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro. Julian não possui muitos amigos, provavelmente tem apenas três amigos que moram juntos, mas que nunca chamaram Julian para visitá-los. Isto é algo que o incomoda muito; Por isso ele tem muitas dúvidas sobre suas amizades, preferindo assim viver distante das pessoas. Desta forma, desde que saiu de sua pequena cidade para fazer faculdade no Rio de Janeiro e adquiriu seu apartamento, passa todas festividades trancado em seu quarto, com o o ar condicionado no máximo e assistindo a filmes que retratam totalmente o contrário do espírito do Natal. Você pode estar sentindo pena de Julian, mas eu garanto, o que ele menos quer, é alguém sentindo pena dele. Julian é orgulhoso e sente que está fazendo o certo... Até o dia em que... Bem…

24 de Dezembro.

Dia 24 de Dezembro. Mais um sonho estúpido. Ainda bem que eu não acredito na psicanálise que diz que o ato de sonhar, é para realizar desejos reprimidos. Como eu já disse, estou muito bem aqui, obrigado. Talvez o ato de jogar o lixo fora me dê mais felicidade do que festejar “O dia da falsidade” com pessoas. HA!  Aposto que quando eu estiver velho e acabar relendo esse estúpido diário com todas as folhas amareladas e cheirando a mofo, vou continuar assim.

Eram 10 da manhã e Julian estava reclamando para si mesmo do quanto o dia iria demorar a passar. Resolveu sair de seu casulo para olhar o movimento da rua. Pegou suas chaves e ao fechar a porta, levou um susto. Não foi ninguém querendo dar uma de engraçadinho, se é o que pensa. O susto foi por alguém ter falado com Julian.

- Olá… Feliz Natal! - disse uma voz não muito desconhecida

- Natal? Hoje é dia 24, Natal é amanhã - Julian falou em um tom seco e amargo. Ao se virar, percebeu que era sua vizinha que havia visto apenas uma vez na vida. Seu nome era Beth. Uma jovem que deveria estar nos seus 20 anos.

- Ah… Ok… Mas enfim, como planeja passar o natal, Julian? Certo? - Perguntou Beth que parecia não estar feliz com a conversa. Não a culpo.

- Em casa. Nunca faço nada no Natal. - Julian falou meio irritado. Estava querendo sair de casa apenas.

- Nossa… Bem, eu uns amigos vamos dar uma festa de Natal aqui hoje às 20 horas. Se quiser, apareça… É do lado mesmo. - Beth disse que entrou em seu apartamento sem dar um adeus. Julian não chegou a responder nada, mas quando se virou para pegar o elevador, soltou uma leve risada.

Sentou-se nas escadas do lado de fora de seu prédio e começou a observar o movimento. Era cedo, mas apesar disto, a rua estava bem movimentada. A padaria na frente de seu prédio estava entupida de gente, provavelmente para comprar os clássicos bolinhos de bacalhau, e mil rabanadas. Aquelas coisas que sempre comem no Natal. Comem, comem, comem, e mesmo quando não aguentam mais, continuam comendo. Era o que Julian pensava e sempre dizia.
Apesar de sempre dizer que não gostava de se reunir para comemora o Natal, no fundo Julian queria não ser assim. Observando as crianças andando na rua com seus pais, e parecendo todas animadas para passar um dia amado por elas com suas famílias. Isso era algo que ele invejava. Até pensava que queria voltar a ser criança e ter aquela doce inocência.

Ao passar do tempo, a movimentação foi diminuindo. Julian sentiu uma tristeza. Seu passatempo não era o mesmo das horas atrás. Algo o afetara, mas ele não queria admitir isso para si.
Então, subiu para seu apartamento. Começou a pensar qual seria o filme da noite, e qual besteira iria comer ao assistir. O problema era que, Julian não estava sentindo vontade de fazer nada. Na verdade, seu ódio pelo Natal havia passado. Não era culpa sua que sua família era desunida e sempre passava o Natal em casa apenas com seus pais. Não era ruim, mas ele sentia falta da união que pregam neste dia. Seus tios e primos de todos os graus não faziam questão de se reunir, e quando se reuniam, eram com pessoas fora da família. O ódio de Julian não era justificável, mas sua chateação era. A antiga desunião foi algo que o afetou, e moldou seu caráter.

E foi aí que Julian percebeu que não poderia mais viver desse jeito. Ele queria conviver com pessoas, ele queria descobrir o sentido do Natal, queria se sentir parte de algo. Numa fração de segundos, já estava escolhendo sua melhor roupa para ir para a festa que Beth o convidara.

Olhando para o seu guarda-roupa, Julian ficou meio confuso. Não sabia se existia alguma regra de roupa para se usar nessas reuniões de Natal. Ele deveria se vestir de alguma forma social? Deveria se fantasiar de algo? No caso, Papai-Noel? Ou deveria escolher qualquer roupa casual?. Pode parecer algo patético a ser questionado, mas para Julian, a dúvida fazia muito sentido. O que ele sabia era que não deveria se vestir de Grinch.

Após pensar muito, decidiu ir de um jeito casual. Mas a nova questão era: Deveria levar algo para comer?. Beth não havia comentado nada, mas observando aquelas pessoas na padaria, Julian pensou que elas estavam comprando algo para se partilhar na ceia. Deste modo, desceu para comprar rabanadas. Nunca havia provado, pediu uma degustação na padaria, e adorou. Esta deveria ser a comida certa a ser levada para a tal festa, ou ceia, ou reunião, ou o que fosse aquilo.
Voltando ao seu prédio, era hora de tocar a campanhia do apartamento de Beth. Julian podia ouvir do lado de fora as risadas escandolosas do grupo.

- Talvez não seja ruim. - Julian sussurou para si.

A porta foi aberta e um rapaz muito alto (muito mesmo), fez sinal para que Julian entrasse. Era aparente que Julian estava super envergonhado por estar na tal festa de Natal. Não conhecia ninguém. Não era amigo de Beth. Mas sabia que ela era uma boa pessoa.

- Então você resolveu vir? Que surpresa Julian! Muito feliz por ter dado uma chance ao Natal. - Exclamou Beth que parecia estar muito animada. A jovem estava usando um vestido vermelho, e seus cabelos estavam presos num coque.

- Trouxe Rabanada. Não sabia se era pra trazer algo, você não disse, mas eu vi pessoas comprando e pensei que fosse algo para se fazer… - Disse Julian de um modo meio atropelado. Estava nervoso.

- Ah, não precisava Julian! Mas é ótimo, temos mais coisa para a ceia! Ah, deixe eu lhe apresentar as pessoas - Beth então o puxou para o sofá, onde estavam todos sentados. Deveriam ter umas oito pessoas, contando com Julian e Beth. 

- Esses são Luís e Maria - Beth apontou para o casal simpático que estavam sentados do lado esquerdo da sala. - E esses são meus amigos de faculdade, Breno, Marcos, Paula e Lucas - Ao apresentá-los, Beth fez uma saudação maluca com os amigos. Dava para perceber que são muito próximos. Julian sentiu um pouco de inveja e tristeza. No fundo, queria amizades assim.

O tempo foi passando, e Julian já havia se entrosado. Beth era uma jovem muito simpática, e ele se sentiu feliz por a ter como vizinha. Em pouco tempo, sentiu que a amizade deles era algo a ser cultivado. Conversaram sobre tudo, e descobriu que ela faz faculdade de Medicina. No momento em que Beth disse isso, Julian pensou que Beth era uma jovem corajosa. Para ele, pessoas que fazem medicina devem ter um grande coração, pois precisam passar por muitas coisas para serem médicos. Assistir à doenças degenerando pessoas não era algo de um ser qualquer.

Os amigos de Beth eram pessoas legais de se ter por perto, e Julian sentiu uma necessidade enorme de tê-los como amigos. Ele precisava de uma família no Rio, e… Qual o problema de ter uma família de amigos?

Enfim…  comeram a ceia.  Uma ceia farta. Julian não comeu muito pois, apesar de ter dado uma nova chance ao Natal, não conseguiu tirar o pensamento anterior de sua cabeça. Achava sim que as pessoas exageravam na ceia, e que a gula estava muito presente. Isto era algo que o incomodava.

Aos poucos, as pessoas iam embora. Todos disseram para Julian manter contato e que esse grupo deveria ser mantido, e mesmo que muitos tivessem se conhecido naquela hora, Beth era o elo de todos. E Julian sabia que Beth saberia manter o grupo unido.

Às 4 da manhã, estavam Beth e Julian conversando.

- Então, Julian, estou curiosa… Qual foi a razão de você decidir dar uma outra chance ao Natal? - Indagou Beth

- Bem… - Começou Julian, que estava soando um pouco tímido. - Quando você falou comigo de manhã, eu estava descendo para observar o movimento da rua, algo de quem não tem nada para fazer, sabe? Então, eu comecei a olhar para a padaria e ver várias pessoas comprando alimentos para a ceia. Todas pareciam felizes. Estavam com um sorriso estampado em seus rostos. E as crianças cantarolavam músicas de natal entre pequenos saltos… Algo tão inocente, e puro. Me desculpe por estar soando ridículo. - Julian falou de modo envergonhado

- Não está nada ridículo. Continue. - Beth como sempre compreensiva, falou.

- Então… Foi algo que me fez pensar. Pensei muito. Bem, minha infância não foi tão legal. Minha família era desunida. Ninguém se gostava na verdade. Eu via meus amigos se reunindo com seus parentes durante as épocas festivas, mas eu continuava em casa, lendo meus gibis, ou assistindo a qualquer coisa que passasse na televisão. Meus tios e primos nunca ligaram muito para mim, ou para meus pais. Minha avó sempre passava as datas comigo e com meus pais, pois nós éramos os únicos que tentavam se reunir. E isso foi algo que me abalou. Eu comecei a pensar desde pequeno que na verdade, ninguém se gostava, e que a falsidade era algo tremendo. Deste modo, comecei a negar que o Natal era importante. Não via nada de importante nisso, era um dia comum. E eu não queria ser excluído, eu queria sentir alguma coisa, mas era impossível. Então… eu cresci assim. Mas hoje, eu dei uma nova chance. Não posso viver assim, não posso me enclausurar. Obrigado por ter me chamado, mesmo depois de eu ter sido totalmente inconveniente com você, Beth. Obrigado mesmo. - Julian falou de um modo que parecia que tivesse retirado um peso de suas costas. 

- Eu te entendo Julian. Na verdade, minha família sempre foi unida, por isso eu sou muito animada para essas coisas. E como eu acredito no Natal, eu tento de uma forma trazer felicidade para a vida das pessoas. E essa é a forma que eu arrumei, fazendo minhas singelas reuniões. Essa é a segunda, e próximo ano, você está convidado. - Beth exclamou do seu jeito doce e simpático.


Após isto, se despediram. Beth e Julian sabiam que iriam ser amigos daí para frente. Julian sabia que o novo ano iria ser diferente. Não iria mais viver se escondendo, pois isto não é algo digno de se fazer. Iria manter as amizades conquistadas neste dia de Natal, e iria cultivar novas amizades. O Natal pode ter significados diferentes para as pessoas, mas no fundo, ele existe para mostrar para elas que existe sim ainda fé na convivência. E que tudo só depende da aceitação. E da vontade da comunhão.

Julian enfim enxergou o sentido do Natal.

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2 comentários:

  1. Lindo texto!!! Esse sentido do Natal esta se perdendo cada vez mais, muitas famílias estão desanimadas e isso é triste muito triste.
    http://contodeumlivro.blogspot.com.br/

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  2. Barth! <3 Seu conto ficou muito emotivo e trouxe à tona como realmente o espírito de Natal cada vez mais vem se perdendo ou sendo esquecido. Eu mesma sou um pouco parecida com o Julian! rs
    Feliz Natal para ti! Beijos!

    www.bibliophiliarium.com

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